“Sei exatamente o que tenho para fazer, mas não consigo começar.”
“Começo várias coisas ao mesmo tempo e tenho dificuldade em terminá-las.”
“Consigo estar horas concentrado numa coisa que me interessa, mas distraio-me facilmente com tarefas simples.”
“Passo muito tempo a tentar organizar-me e, mesmo assim, sinto que estou sempre atrasado.”
“Porque é que algumas coisas parecem tão fáceis para os outros e tão difíceis para mim?”
Se estas situações lhe são familiares, pode ser importante compreender melhor o funcionamento da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).
A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento que pode persistir ao longo da vida e que se caracteriza por dificuldades persistentes de atenção e/ou hiperatividade e impulsividade, com impacto significativo no funcionamento da pessoa (APA, 2022; Faraone et al., 2021).
Apesar de muitas vezes ser associada à infância, a PHDA também está presente na idade adulta. E, nesta fase, nem sempre se manifesta através da imagem tradicional de uma pessoa “hiperativa”.
Por vezes, aquilo que aparece é uma sensação constante de desorganização, dificuldade em gerir o tempo, esquecimentos, procrastinação, impulsividade, dificuldade em iniciar tarefas ou uma enorme dificuldade em manter a atenção em atividades pouco estimulantes. E, muitas vezes, estas dificuldades são acompanhadas por anos de críticas, frustração e pela sensação de “não estar a conseguir fazer aquilo que sabe que consegue fazer”.
O que é a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção?
A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento que envolve um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere com o funcionamento ou desenvolvimento da pessoa (APA, 2022). Na idade adulta, estes sintomas podem manifestar-se de formas muito diferentes.
Desatenção
- dificuldade em manter a atenção em tarefas prolongadas;
- esquecimentos frequentes;
- perder objetos;
- dificuldade em seguir instruções até ao fim;
- dificuldade em organizar tarefas;
- tendência para adiar tarefas;
- distração fácil com estímulos externos ou pensamentos;
- dificuldade em gerir o tempo.
Hiperatividade e impulsividade
- necessidade constante de estar ocupada;
- dificuldade em permanecer quieto durante muito tempo;
- falar excessivamente;
- interromper os outros;
- agir antes de pensar;
- dificuldade em esperar;
- sensação interna de inquietação.
Nem todas as pessoas apresentam todas estas características. A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção é heterogénea e pode manifestar-se de formas diferentes de pessoa para pessoa (Faraone et al., 2021).
“Mas eu consigo estar muito concentrado…”
“Se tenho PHDA, porque é que consigo passar três horas completamente concentrado numa coisa?”
A resposta está, em parte, na diferença entre ter dificuldade em regular a atenção e simplesmente “não conseguir prestar atenção”.
Uma pessoa com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção pode ter dificuldade em direcionar, manter e mudar a atenção de acordo com aquilo que a situação exige.
Uma tarefa interessante, nova ou altamente estimulante pode prender a atenção durante horas. Já uma tarefa repetitiva, pouco estimulante ou que exige esperar por uma recompensa futura pode tornar-se muito mais difícil de iniciar ou manter. Esta variabilidade não significa falta de vontade. As dificuldades de atenção e das funções executivas podem fazer parte do funcionamento da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (Faraone et al., 2021; Díaz-Orueta et al., 2021).
“E se eu souber exatamente o que tenho de fazer, mas não conseguir começar?”
“Eu sei o que tenho de fazer.”
“Sei que é importante.”
“Sei como fazer.”
“Então porque é que não consigo começar?”
Uma das dificuldades frequentemente associadas à Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção está relacionada com as funções executivas — processos envolvidos na organização, planeamento, inibição, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e regulação do comportamento.
Isto pode fazer com que uma tarefa aparentemente simples se transforme numa sequência de pequenos obstáculos:
A dificuldade não está necessariamente em não saber o que fazer. Pode estar em transformar a intenção em ação. A investigação em adultos com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção identifica dificuldades em diferentes domínios cognitivos, incluindo atenção, memória de trabalho, inibição e outras funções executivas (Díaz-Orueta et al., 2021).
E a impulsividade?
A impulsividade nem sempre significa “agir sem pensar” de forma evidente. No adulto, pode aparecer através de:
- interromper conversas;
- responder antes de a outra pessoa terminar;
- tomar decisões rapidamente;
- fazer compras impulsivas;
- mudar frequentemente de planos;
- dizer algo e arrepender-se depois;
- dificuldade em esperar;
- procurar constantemente novidade ou estimulação.
“Mas eu não sou hiperativo…”
A hiperatividade na idade adulta pode não se parecer com a hiperatividade de uma criança. Em vez de estar constantemente em movimento, pode existir uma sensação interna de inquietação. Por exemplo:
- dificuldade em descansar;
- necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa;
- mexer constantemente as mãos ou pernas;
- dificuldade em permanecer sentado durante muito tempo;
- procurar várias atividades em simultâneo;
- sentir desconforto perante períodos prolongados de inatividade.
E a regulação emocional?
Embora a desregulação emocional não constitua, por si só, um critério diagnóstico central da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, dificuldades na regulação emocional são frequentemente descritas em pessoas com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção e podem contribuir para o impacto funcional da perturbação (Faraone et al., 2021).
“Fico muito frustrado muito rapidamente.”
“Quando alguma coisa corre mal, parece que fico completamente bloqueado.”
“Passo de estar bem para estar extremamente irritado.”
“Tenho dificuldade em recuperar depois de uma situação emocionalmente intensa.”
Assim, pode existir uma maior dificuldade em regular a intensidade, duração ou expressão das emoções.
E se durante anos eu tiver pensado que era “preguiçoso”?
Muitas pessoas chegam à idade adulta depois de anos a ouvir:
“És distraído.”
“Não tens atenção nenhuma.”
“Se te esforçasses mais, conseguias.”
“És muito desorganizado.”
“Podes fazer melhor.”
Quando estas mensagens se repetem, podem transformar dificuldades específicas numa avaliação global da própria pessoa.
“Sou preguiçoso.”
“Sou irresponsável.”
“Não tenho força de vontade.”
“Há qualquer coisa errada comigo.”
“Como é que cheguei à idade adulta sem ninguém perceber?”
Uma pessoa pode desenvolver estratégias que permitem compensar parcialmente as dificuldades durante muitos anos. Por vezes, as dificuldades tornam-se mais evidentes quando aumentam as exigências da vida adulta. Quando as estruturas externas diminuem e as responsabilidades aumentam, estratégias que funcionavam anteriormente podem deixar de ser suficientes.
A ausência de diagnóstico na infância não exclui automaticamente a possibilidade de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção na idade adulta. No entanto, a avaliação diagnóstica deve considerar a história do desenvolvimento e a presença de manifestações desde a infância, bem como o impacto dos sintomas em diferentes contextos (NICE, 2018; APA, 2022).
E nas mulheres, a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção pode passar despercebida?
A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção pode ser subdiagnosticada no sexo feminino, especialmente quando os sintomas não correspondem à imagem mais conhecida da hiperatividade (NICE, 2018).
Algumas mulheres podem apresentar predominantemente dificuldades de atenção, organização e gestão do tempo, sem comportamentos de hiperatividade tão evidentes. Também podem desenvolver estratégias para compensar as dificuldades, como:
- perfeccionismo;
- excesso de preparação;
- listas intermináveis;
- controlo rígido;
- trabalhar até à exaustão;
- evitar situações onde possam falhar.
Como é feita a avaliação?
É necessária uma avaliação clínica abrangente, que considere a história de desenvolvimento, os sintomas atuais, o funcionamento em diferentes contextos e o impacto das dificuldades na vida da pessoa (NICE, 2018).
Também é importante avaliar outras condições que possam coexistir ou explicar parte das dificuldades. Ansiedade, depressão, perturbações do sono, consumo de substâncias e outras condições podem apresentar sintomas semelhantes ou coexistir com a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. Por isso, um diagnóstico exige uma avaliação individualizada.
Existe tratamento?
As recomendações clínicas incluem intervenções farmacológicas e não farmacológicas, sendo que, nos adultos, as intervenções psicológicas estruturadas focadas na Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção podem incluir componentes de Terapia Cognitivo-Comportamental (NICE, 2018).
A intervenção psicológica pode ajudar, por exemplo, a:
- compreender o próprio funcionamento;
- desenvolver estratégias de organização;
- trabalhar a gestão do tempo;
- reduzir a procrastinação;
- melhorar a capacidade de iniciar tarefas;
- identificar padrões de pensamento pouco úteis;
- desenvolver estratégias de regulação emocional;
- trabalhar autoestima e autocrítica;
- melhorar a relação com as próprias dificuldades.
Acompanhamento individualizado
Estas dificuldades estão a interferir com o seu dia a dia?
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
- Díaz-Orueta, U., García-López, C., Crespo-Eguílaz, N., & Narbona, J. (2021). Cognitive characterization of adult attention deficit hyperactivity disorder by domains: A systematic review. Journal of Neural Transmission, 128, 1223–1241. https://doi.org/10.1007/s00702-021-02302-6
- Faraone, S. V., Banaschewski, T., Coghill, D., Zheng, Y., Biederman, J., Bellgrove, M. A., Newcorn, J. H., Gignac, M., Al Saud, N. M., Manor, I., Rohde, L. A., Yang, L., Cortese, S., Almagor, D., Stein, M. A., Albatti, T. H., Aljoudi, H. F., Alqahtani, M. M. J., Asherson, P., … Wang, Y. (2021). The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 128, 789–818. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2021.01.022
- National Institute for Health and Care Excellence. (2018). Attention deficit hyperactivity disorder: Diagnosis and management (NICE Guideline NG87). NICE.
- World Health Organization. (2022). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). World Health Organization.