Psicologia · POC

Perturbação Obsessivo-Compulsiva

“E se eu não fizer isto e acontecer alguma coisa horrível?”

Mónica Bexiga
Autora do artigo Mónica Bexiga Psicóloga Clínica

“E se eu tiver feito alguma coisa errada?”

“E se acontecer alguma coisa má por minha culpa?”

“E se estiver contaminado?”

“E se, sem querer, magoar alguém?”

“Tenho a certeza de que tranquei a porta?”

“E se não tiver a certeza suficiente?”

“Preciso de verificar outra vez.”

Todos podemos ter pensamentos indesejados, dúvidas ou comportamentos repetitivos. Mas e quando esses pensamentos começam a ocupar demasiado espaço? E quando sentimos que precisamos de verificar, limpar, repetir, perguntar ou pensar vezes sem conta para conseguir sentir algum alívio? Nestes casos, podemos estar perante uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).

O que é a Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva caracteriza-se pela presença de obsessões, compulsões ou ambas, que provocam sofrimento significativo, consomem tempo ou interferem com o funcionamento da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).

As obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes e indesejados, que provocam ansiedade, desconforto, dúvida ou outros sentimentos difíceis. As compulsões são comportamentos ou atos mentais repetitivos que a pessoa sente necessidade de realizar, muitas vezes para diminuir esse desconforto ou evitar uma consequência temida (American Psychiatric Association, 2022).

Obsessão→ Ansiedade / dúvida→ Compulsão→ Alívio temporário→ Nova obsessão

O que são obsessões?

As obsessões podem assumir formas muito diferentes. Podem surgir como pensamentos:

“E se eu contaminar alguém?”

“E se esta porta não estiver realmente fechada?”

“E se perder o controlo?”

“E se este pensamento significar alguma coisa sobre mim?”

Podem também surgir como imagens mentais ou impulsos indesejados. Uma característica importante é que estes pensamentos são geralmente vivenciados como intrusivos e indesejados. A pessoa não escolhe pensar neles e pode sentir-se profundamente perturbada pelo seu conteúdo.

Ter um pensamento significa que ele é verdadeiro?

Todos podemos ter pensamentos desagradáveis ou inesperados. Podemos imaginar situações que nunca acontecerão. Podemos ter pensamentos que contradizem aquilo que valorizamos. Podemos até ter pensamentos que nos assustam.

Ter um pensamento não significa que esse pensamento seja verdadeiro. Também não significa que a pessoa queira agir de acordo com ele.

Na Perturbação Obsessivo-Compulsiva, uma das dificuldades pode estar precisamente em atribuir demasiado significado à presença desses pensamentos.

“Porque é que pensei isto?”

“Será que isto significa alguma coisa sobre mim?”

“E se, no fundo, eu for capaz de fazer isto?”

A tentativa de encontrar uma resposta definitiva pode acabar por alimentar ainda mais a preocupação.

E o que são compulsões?

As compulsões são comportamentos ou atos mentais repetitivos realizados para diminuir o desconforto provocado pelas obsessões ou para prevenir uma consequência temida.

Podem ser comportamentos visíveis, como:

  • lavar as mãos repetidamente;
  • limpar objetos de forma excessiva;
  • verificar portas, janelas ou aparelhos;
  • organizar objetos de determinada forma;
  • repetir determinadas ações;
  • evitar tocar em determinados objetos.

Mas as compulsões também podem acontecer apenas na mente. Por exemplo:

  • repetir palavras ou frases mentalmente;
  • contar;
  • rezar repetidamente para neutralizar um pensamento;
  • rever mentalmente acontecimentos;
  • procurar uma resposta perfeita;
  • analisar continuamente aquilo que sentiu;
  • tentar substituir um pensamento por outro;
  • pedir mentalmente desculpa.

Nestes casos, pode ser mais difícil perceber que existe uma compulsão, porque, externamente, a pessoa pode parecer simplesmente estar a pensar. A compulsão proporciona, habitualmente, algum alívio.

“E se eu não tiver fechado a porta?”
↓
Ansiedade e dúvida
↓
Voltar a verificar
↓
“Agora tenho a certeza.”
↓
Alívio

O problema é que esse alívio pode ser apenas temporário. Mais tarde, a dúvida pode regressar: “Mas será que verifiquei mesmo bem?”

E a pessoa sente novamente necessidade de verificar. É assim que o comportamento pode ficar reforçado. A compulsão reduz o desconforto naquele momento, mas pode contribuir para manter o ciclo obsessivo-compulsivo a longo prazo.

A dúvida pode tornar-se interminável

Uma das experiências frequentemente associadas à Perturbação Obsessivo-Compulsiva é a dificuldade em tolerar a incerteza.

“E se...?”

“E se acontecer?”

“E se eu me enganar?”

“E se não tiver feito corretamente?”

“E se tiver acontecido alguma coisa sem eu perceber?”

A pessoa procura uma resposta que permita finalmente sentir-se segura. Mas cada resposta pode gerar uma nova dúvida.

“Tenho a certeza?”

“E se houver uma exceção?”

“E se não tiver pensado em tudo?”

Assim, a procura de certeza pode transformar-se num processo interminável. Isto pode também afetar as pessoas próximas, que podem acabar por participar involuntariamente nos rituais, fornecendo garantias repetidas ou adaptando o seu comportamento às compulsões (NICE, 2005).

É possível quebrar este ciclo?

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), particularmente quando inclui Exposição e Prevenção de Resposta (ERP), é uma das intervenções psicológicas com maior suporte científico para a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (Abramowitz, 2006; Öst et al., 2015).

A exposição consiste em aproximar-se, de forma gradual e planeada, de situações, objetos, pensamentos ou imagens que desencadeiam obsessões. A prevenção de resposta consiste em reduzir ou impedir, de forma igualmente planeada, a realização das compulsões ou estratégias de neutralização.

O objetivo não é obrigar a pessoa a enfrentar os seus medos de forma abrupta. A Exposição e Prevenção de Resposta procura precisamente ajudar a pessoa a enfrentar gradualmente aquilo que teme e a aprender novas formas de responder sem recorrer aos rituais (NICE, 2005; Foa et al., 2005).

O tratamento é realizado de forma colaborativa e progressiva, respeitando o ritmo da pessoa e com acompanhamento de um profissional devidamente formado (NICE, 2005).

Quando procurar ajuda?

Pode ser importante procurar apoio psicológico quando:

  • os pensamentos indesejados ocupam muito tempo;
  • sente necessidade de verificar repetidamente;
  • lava ou limpa de forma excessiva;
  • precisa constantemente de pedir garantias;
  • passa muito tempo a analisar acontecimentos;
  • evita situações por medo das obsessões;
  • sente necessidade de repetir determinados comportamentos ou pensamentos;
  • os rituais interferem com o trabalho, estudos ou relações;
  • sente que a sua vida está cada vez mais limitada pela necessidade de evitar ou neutralizar determinadas situações.

A intensidade da Perturbação Obsessivo-Compulsiva pode variar e o impacto na vida da pessoa é um aspeto importante na avaliação clínica (American Psychiatric Association, 2022). Procurar ajuda significa reconhecer que este ciclo está a causar sofrimento e que existem formas de intervenção eficazes.

Acompanhamento individualizado

As obsessões, dúvidas ou rituais estão a ocupar demasiado espaço no seu dia a dia?

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Referências

  • Abramowitz, J. S. (2006). The psychological treatment of obsessive-compulsive disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 51(7), 407–416. https://doi.org/10.1177/070674370605100702
  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • Foa, E. B., Franklin, M. E., & Moser, J. (2002). Context in the clinic: How well do cognitive-behavioral therapies and medications work in the treatment of obsessive-compulsive disorder? CNS Spectrums, 7(12 Suppl 1), 34–43.
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2005). Obsessive-compulsive disorder and body dysmorphic disorder: Treatment (CG31). NICE.
  • Öst, L.-G., Havnen, A., Hansen, B., & Kvale, G. (2015). Cognitive behavioral treatments of obsessive-compulsive disorder: A systematic review and meta-analysis of studies published 1993–2014. Clinical Psychology Review, 40, 156–169. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2015.06.003