“Já passou, mas eu continuo a sentir que estou lá.”
“Sei que estou seguro, mas o meu corpo parece não acreditar.”
“Evito falar sobre o que aconteceu.”
“Há coisas que me fazem voltar imediatamente àquele momento.”
“Porque é que ainda me sinto assim, se já passou tanto tempo?”
“Queria esquecer, mas quanto mais tento, mais penso nisso.”
Depois de vivermos uma experiência potencialmente traumática, é natural que o corpo e a mente precisem de algum tempo para recuperar.
Podemos sentir medo, tristeza, irritabilidade, dificuldade em dormir ou ficar mais alerta durante algum tempo. Na maioria dos casos, estas reações diminuem progressivamente. Mas, para algumas pessoas, a experiência continua a interferir significativamente com a sua vida mesmo depois de o acontecimento ter terminado.
É neste contexto que pode surgir a Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT).
O que é a Perturbação de Stress Pós-Traumático?
A Perturbação de Stress Pós-Traumático é uma perturbação que pode surgir depois da exposição a um acontecimento traumático ou potencialmente traumático. Pode estar relacionada com experiências como acidentes graves, violência, abuso, agressão sexual, guerra, catástrofes, ameaças à vida ou outras situações que envolvam morte, ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual (American Psychiatric Association, 2022).
É importante compreender que nem todas as pessoas que passam por uma experiência traumática desenvolvem PSPT. Uma reação de stress depois de um acontecimento difícil não significa, por si só, que exista uma perturbação. Na PSPT, os sintomas persistem e interferem de forma significativa com o funcionamento e o bem-estar da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).
O risco pode ser influenciado por diferentes fatores, incluindo características do acontecimento, experiências anteriores, apoio social, história individual e outras condições psicológicas (Brewin et al., 2000).
O trauma fica apenas na memória?
Uma experiência traumática pode alterar a forma como a pessoa se sente, pensa e reage muito depois de o acontecimento ter terminado. Podem surgir:
- memórias involuntárias;
- imagens perturbadoras;
- pesadelos;
- sensação de reviver o acontecimento;
- reações físicas intensas perante determinados estímulos;
- evitamento;
- hipervigilância;
- alterações emocionais e cognitivas.
Por vezes, algo aparentemente pequeno — um cheiro, um som, um local, uma data ou uma determinada situação — pode desencadear uma reação muito intensa.
“Eu sei que estou aqui, mas naquele momento parece que estou outra vez lá.”
O que são memórias traumáticas?
Depois de uma experiência traumática, algumas memórias podem surgir de forma diferente das recordações habituais. Em vez de serem simplesmente lembranças do passado, podem aparecer de forma intrusiva e involuntária, acompanhadas de emoções e sensações físicas intensas.
“De repente, veio-me aquela imagem à cabeça.”
“Senti novamente o mesmo medo.”
“O meu coração começou a bater muito depressa.”
“Por alguns segundos, parecia que estava novamente naquele lugar.”
Estas experiências podem ser extremamente perturbadoras. Na PSPT, a pessoa pode experienciar memórias intrusivas, sonhos relacionados com o acontecimento ou episódios em que sente como se o acontecimento estivesse a acontecer novamente (American Psychiatric Association, 2022).
O que é a hipervigilância?
A hipervigilância corresponde a um estado de alerta aumentado perante possíveis sinais de perigo.
- observar constantemente o ambiente;
- sentir necessidade de se sentar perto de saídas;
- verificar repetidamente se está tudo seguro;
- assustar-se facilmente com sons inesperados;
- ter dificuldade em relaxar em locais públicos;
- estar constantemente atenta às reações dos outros.
E o evitamento?
Quando alguma coisa nos provoca medo, é natural querermos afastar-nos dela. Depois de uma experiência traumática, a pessoa pode começar a evitar tudo aquilo que lhe faça lembrar o acontecimento.
- determinados locais;
- pessoas;
- conversas;
- notícias;
- filmes;
- cheiros;
- sons;
- situações semelhantes;
- pensamentos ou sentimentos relacionados com o trauma.
Por exemplo, alguém que sofreu um acidente de viação pode começar por evitar determinada estrada. Mais tarde, pode evitar conduzir. Depois pode evitar andar de carro. E, progressivamente, a sua vida pode tornar-se cada vez mais limitada.
O evitamento pode proporcionar alívio no momento, mas pode contribuir para manter o medo a longo prazo (Ehlers & Clark, 2000).
“Não quero pensar nisso”
É compreensível querer afastar pensamentos relacionados com uma experiência dolorosa. O problema é que tentar não pensar em algo pode, paradoxalmente, fazer com que esse pensamento se torne ainda mais presente.
“Não posso pensar nisso.”
Mas a própria tentativa de controlar o pensamento mantém a atenção ligada ao tema. Por isso, o tratamento não consiste simplesmente em obrigar a pessoa a falar sobre o trauma repetidamente. É necessário criar condições de segurança e utilizar estratégias terapêuticas adequadas, de forma gradual e individualizada.
O trauma pode mudar a forma como vemos o mundo
Uma experiência traumática pode alterar crenças sobre nós próprios, os outros e o mundo. Podem surgir pensamentos como:
“O mundo não é seguro.”
“Não posso confiar em ninguém.”
“Eu devia ter feito alguma coisa.”
“Foi culpa minha.”
“Nunca mais vou estar seguro.”
“Sou fraco por ainda me sentir assim.”
Estas interpretações podem contribuir para manter o sofrimento depois do acontecimento traumático (Ehlers & Clark, 2000).
E a culpa?
A culpa e a vergonha podem estar muito presentes depois de experiências traumáticas. A pessoa pode responsabilizar-se por aquilo que aconteceu, mesmo quando não tinha controlo sobre a situação.
Mas as respostas perante uma ameaça não são sempre conscientes ou voluntárias. Perante situações extremas, podemos lutar, fugir, ficar imóveis, dissociar-nos ou responder de formas que só compreendemos posteriormente.
Avaliar uma reação passada com a informação e a segurança que temos no presente pode levar a julgamentos injustos sobre nós próprios.
É possível tratar a Perturbação de Stress Pós-Traumático?
Entre as abordagens recomendadas encontram-se diferentes formas de Terapia Cognitivo-Comportamental focada no trauma, incluindo intervenções baseadas em exposição, e o EMDR — Eye Movement Desensitization and Reprocessing (NICE, 2018; VA/DoD, 2023).
Estas intervenções procuram ajudar a pessoa a processar a memória traumática, reduzir o evitamento e modificar interpretações e respostas que contribuem para a manutenção dos sintomas.
As intervenções focadas no trauma são estruturadas e realizadas de forma gradual. O terapeuta ajuda a pessoa a aproximar-se das memórias, emoções e situações relacionadas com o trauma de uma forma segura e terapêutica. O tratamento deve ser adaptado à pessoa, à natureza da experiência e às suas necessidades.
Quando procurar ajuda?
Pode ser importante procurar apoio psicológico quando, depois de uma experiência traumática:
- as memórias surgem de forma intrusiva;
- tem pesadelos frequentes;
- sente que está constantemente em alerta;
- assusta-se facilmente;
- evita pessoas, locais ou situações;
- sente-se emocionalmente desligado;
- tem dificuldade em dormir;
- sente culpa ou vergonha intensas;
- o acontecimento continua a interferir com as suas relações ou trabalho;
- sente que a sua vida está cada vez mais limitada pelo medo.
Se se identificou com algumas das características descritas neste artigo, saiba que não está sozinho. A Perturbação de Stress Pós-Traumático pode ser tratada e existem intervenções psicológicas eficazes.
O que aconteceu faz parte da sua história, mas não precisa de continuar a controlar o seu presente.
Acompanhamento psicológico
Uma experiência traumática continua a interferir com o seu presente?
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
- Brewin, C. R., Andrews, B., & Valentine, J. D. (2000). Meta-analysis of risk factors for posttraumatic stress disorder in trauma-exposed adults. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 68(5), 748–766. https://doi.org/10.1037/0022-006X.68.5.748
- Ehlers, A., & Clark, D. M. (2000). A cognitive model of posttraumatic stress disorder. Behaviour Research and Therapy, 38(4), 319–345. https://doi.org/10.1016/S0005-7967(99)00123-0
- National Institute for Health and Care Excellence. (2018). Post-traumatic stress disorder (NG116). NICE.
- U.S. Department of Veterans Affairs & U.S. Department of Defense. (2023). VA/DoD Clinical Practice Guideline for the Management of Posttraumatic Stress Disorder and Acute Stress Disorder.
- World Health Organization. (2019). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). World Health Organization.